Um ano em Richmond.
Nem sei por onde começar.
Há um ano chegava numa casa vazia.
Cadê meu sofá? Cadê minha vida?
Meninas numa escola nova.
Língua nova.
Amigos novos.
Até ir no supermercado era novo.
Abrir a torneira, subir e descer escadas.
Dirigir do lado errado.
Anda, anda e aprende a andar na rua.
Metrô, trem, patinete.
Em 365 dias aprendi muita coisa.
Falar sorry toda hora.
Olhar no relógio para não perder o trem.
Correr para pegar o trem.
Aproveitar o parque.
Curtir o sol.
Cinema sem legenda.
Cuidar do jardim.
Varrer o jardim.
Chamar o jardineiro.
Ingresso a gente compra pela internet.
Tudo a gente compra pela internet.
Comemora um dia de sol
mas torce para neve chegar.
Sente saudade do Brasil,
da casa antiga,
dos amigos.
Revê amigos que vem para cá.
Conhece o amigo, do amigo, do amigo e fica amigo.
Aprende a recilciar o lixo.
Vai para Paris em duas horas.
Leva a própria sacola para o supermercado.
Muitas exposições.
Muitos museus.
Muitos passeios.
Mapa. Google. GPS. Postcode.
Abastecer o carro.
Escola para as meninas aprenderem.
Regras da escola para mãe aprender.
Uniforme.
Planeja férias, teatro, circo.
Compra uma agenda.
Vinho, cerveja.
Suco de maçã.
Água da torneira.
Brigadeiro que a dinda manda.
Já passei dois dias das mães aqui.
Mãe tempo integral.
Filhas tempo integral.
Faço pipoca.
Tomo guaraná.
Uso lencinhos para tudo, menos para lágrimas.
Não tenho tempo de chorar.
Nao quero chorar.
Não preciso chorar.
Quero aproveitar.
Que venha mais um ano em Londres.
Com tudo isso e mais um pouco.


























































